Snakes and snakebites in the munduruku cosmology and medicine, central Brazilian Amazonia.
Resumo em português
O envenenamento por picada de cobra é um importante problema de saúde pública na Amazônia, afetando desproporcionalmente populações indígenas com altas taxas de incidência e mortalidade. Esforços para descentralizar o tratamento com soro antiofídico para áreas remotas exigem não apenas adaptações logísticas, mas também uma compreensão mais profunda dos sistemas médicos indígenas para viabilizar cuidados culturalmente apropriados. Este estudo teve como objetivo construir um modelo explicativo das picadas de cobra a partir da perspectiva do povo Munduruku, um grupo indígena da Amazônia Central Brasileira. Realizamos um estudo qualitativo baseado em entrevistas detalhadas com dezenove curandeiros tradicionais. Nossa orientação metodológica segue a teoria do perspectivismo ameríndio. Os dados foram organizados em cinco categorias relevantes: 1) Identidades dos participantes; 2) Cobras e picadas de cobra; 3) Curso da enfermidade; 4) Recursos terapêuticos na medicina Munduruku. Os curandeiros Munduruku interpretam as picadas de cobra como eventos que envolvem dimensões naturais e sobrenaturais, integrando fatores corporais, sociais e espirituais. As cobras são percebidas como seres intencionais, e o envenenamento pode resultar não apenas de encontros físicos, mas também de feitiçaria ou transgressão das normas sociais; a gravidade percebida é moldada pelo tipo de cobra, pelo cumprimento de restrições alimentares e sexuais, e pela causa espiritual. As práticas terapêuticas envolvem predominantemente preparações tópicas, rituais e intervenções simbólicas inseridas em contextos relacionais e cosmológicos mais amplos. Apesar desses modelos explicativos distintos, a maioria dos participantes reconheceu a importância da atenção biomédica, particularmente para casos graves, e não se opôs ao encaminhamento para tratamento hospitalar, enquanto as práticas de cura indígenas permanecem centrais ao longo do itinerário terapêutico. Melhorar os resultados das picadas de cobra na Amazônia requer estratégias interculturais de saúde que integrem os sistemas biomédico e indígena, sendo essencial parcerias simétricas com curandeiros indígenas para garantir o acesso oportuno ao soro antiofídico, respeitando os conhecimentos e práticas locais.
Resumo original em inglês
Snakebite envenoming is a major public health problem in the Amazon, disproportionately affecting Indigenous populations with high incidence and mortality rates. Efforts to decentralize antivenom treatment to remote areas require not only logistical adaptations, but also a deeper understanding of Indigenous medical systems to enable culturally appropriate care. This study aimed to construct an explanatory model of snakebites from the perspective of the Munduruku people, an Indigenous group in the Central Brazilian Amazon. We conducted a qualitative study based on in-depth interviews with nineteen traditional healers. Our methodological orientation follows the Amerindian perspectivism theory. Data was sorted into five relevant categories: 1) Participants' identities; 2) Snakes and snakebites; 3) Course of sickness; and 4) Therapeutic resources in the Munduruku medicine. Munduruku healers interpret snakebites as events involving both natural and supernatural dimensions, integrating bodily, social, and spiritual factors. Snakes are perceived as intentional beings, and envenomation may result not only from physical encounters but also from sorcery or transgression of social norms; perceived severity is shaped by the type of snake, adherence to dietary and sexual restrictions, and spiritual causality. Therapeutic practices predominantly involve topical preparations, rituals, and symbolic interventions embedded within broader relational and cosmological frameworks. Despite these distinct explanatory models, most participants recognized the importance of biomedical care, particularly for severe cases, and did not oppose referral to hospital-based treatment, while Indigenous healing practices remain central throughout the therapeutic itinerary. Improving snakebite outcomes in the Amazon requires intercultural health strategies that integrate biomedical and Indigenous systems, with symmetrical partnerships with Indigenous healers being essential to ensure timely access to antivenom while respecting local knowledge and practices.
Fonte e licença. Publicado sob CC BY. DOI: 10.1371/journal.pntd.0014462. Ler o artigo completo na fonte ↗
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Dados de terceiros. Metadados bibliográficos do Europe PMC, DOAJ, Crossref e OpenAlex. Taxonomia do GBIF — Global Biodiversity Information Facility, Backbone Taxonomy sob CC BY 4.0.
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